sábado, 10 de dezembro de 2011

DELCIO CARVALHO, COMPOSITOR DO MILÊNIO

TERÇA-FEIRA, 28 DE DEZEMBRO DE 2010

DELCIO CARVALHO, COMPOSITOR DO MILÊNIO.

    Não tenho o hábito de puxar sardinha, mas quando o assunto diz respeito ao ato de fazer justiça, sinto a extrema necessidade de expressar minha opinião.
    Estudo há um bom tempo a obra de DELCIO CARVALHO e tenho igualmente a honra de ser um de seus parceiros.
    Na minha humilde opinião, humilde e sincera opinião, trata-se aqui de um dos maiores compositores da música popular brasileira.
    A originalidade de suas letras impressiona e a força de suas imagens atesta o irrevogável caráter de permanência na mente e no coração.
     A obra de DELCIO fala diretamente às vísceras quando nos invade e nos seduz prontamente. 
     No momento mesmo em que começamos a ouvir as peças,momento mágico diga-se de passagem,  chegamos à fatal conclusão de que não poderemos mais viver sem as mesmas.
      Muitos só conhecem o DELCIO de SONHO MEU, ALVORECER, VENDAVAL DA VIDA E ACREDITAR, mas ainda desconhecem muitas pérolas presentes nos cds produzidos pela PETROBRÁS e em alguns outros. 


                       Aqui e agora temos o DELCIO  lírico em VENDAVAL DA VIDA, nos mostrando um caminho para revigorar nossas almas:




VENDAVAL DA VIDA


Vou sorrindo
Com o meu interior chorando
Amargando o meu viver sofrido
Assistindo o que se vai passando
Eu vou resistindo
Resistindo
Do meu posto o vendaval da vida
Aplaudindo a quem já vai subindo
E amparando a quem já vem caindo....

 ou ainda temos esta pérola que se encontra no cd da PETROBRÁS.

Vou cantando a vida por aí/
colhendo tudo que ela dá/
dando um tom de alegria à tristeza/
que insiste em me abraçar/
felicidade é ilusão/
e de ilusão/
eu vivo sem parar/
dissimulando o canto que mora em meu olhar....
  
ou ainda cantando a natureza atestando o caráter universal de sua obra jamais piegas...

Olha como a flor se ascende
Quando o dia amanhece
Minha mágoa se esconde
A esperança aparece....




ou ainda em tom de contestação sem perder a essência poética em VELHA CICATRIZ:



Nós convidamos essa massa aí
Pra ser feliz ao menos uma vez
Pra escolher a sua direção
E obececer somente ao coração
Nós convidamos essa massa aí....

ou ainda em tom melancólico e profundamente poético em CADÊ A FESTA:
Cadê a festa
A vida anda triste as almas desertas
Não vejo sorriso por toda cidade
Nem mesmo o perfume que exala da noite
Nem mesmo a cantiga na boca do vento
La vai o meu samba chorando saudade
Lá vai a saudade em busca do amor
Prá onde foi a festa e o prazer
Toda alegria de viver....

                                      Este DELCIO CARVALHO, versátil e ao mesmo tempo extremamente coerente, nos arrebata e, quando conversamos com o mesmo de forma natural e positiva,  descobrimos ainda mais na sua simplicidade a razão para o sucesso inquestionável.
                                           Sem dúvida alguma, um compositor especial  que figura entre os grandes bambas do cenário nacional de todos os tempos.

JOÃO AYRES, POETA,COMPOSITOR E  PARCEIRO DE DELCIO CARVALHO.
                                                    

                                            



sábado, 11 de junho de 2011

Tive, Sim
                  Cartola


  Mais  um samba fabuloso deste grande mestre chamado Cartola.
  A começar pelo título que imediatamente aguça a curiosidade do ouvinte, pois trata-se de um fragmento, de um trecho flexionado no passado  sugerindo certa incompletude.
  Vamos acompanhando a cadência, levemente melancólica e saudosista, quando da afirmação profundamente sincera e geralmente dolorosa de um amor que já se foi, mas que ficou marcado na alma para sempre.
   Diferentemente dos pagodes românticos que insistem na tosca abordagem desta temática, o compositor-poeta é cuidadoso na escolha dos versos, principalmente na cena inicial.
   Observem que a trama se desenvolve harmonicamente sem excessos e com profundo esmero.
   Reparem ainda na riqueza das rimas, pois o artista foi muito feliz ao trabalhar com  sim e assim  sem ferir os ouvidos.
  A verdade na constatação para o outro de que houve um grande amor machuca e muito, ainda mais quando se alude à comunhão de sonhos que poderia ainda ser ampliada em vários níveis de desejo. Nossa vivência acha-se expressa nesta bela frase certamente, estabelecendo-se assim a perfeita interação entre  música e ouvinte.
 Vamos seguindo este caminho árduo e misterioso, e nos deparamos com versos que sugerem uma atmosfera mais intimista ao apontarem para uma grande cumplicidade no lar, na vida doméstica, na rotina de todos os dias, nesta tal poderosa intimidade que pode ameaçar a estabilidade da relação com o outro, com o parceiro da hora que ao ouvir tal coisa está como que a se roer por dentro.
 Este crescendo em nível de tensão esbarra, insisto que não há pieguice aqui,   em seu arrefecimento no doce correr dos versos finais quando o amor atual eterno e duradouro é reafirmado.
Cartola retrata aqui de forma magnífica as sutilezas do jogo amoroso que deve, quer queiramos ou não, ser sempre posto à prova para encontrar re-conhecimento.

 

Tive, sim
Outro grande amor antes do seu
Tive sim
O que ela sonhava eram os meus sonhos e assim/
Íamos vivendo em paz/

Nosso lar, em nosso lar sempre houve alegria


Eu vivia tão contente


Como contente ao teu lado estou



Tive, sim



Mas comparar com o teu amor seria o fim



Eu vou calar



Pois não pretendo amor te magoar
Tive, Sim letras




Tom: G

Intro: Am D7 G A#º Am D7 G A#º Am G Em A7 D Bm Em A7 D7

A/E Cm

Tive, sim

Bm

Outro grande amor antes do teu

A#º

Tive, sim

Am

O que ela sonhava eram os meus sonhos e assim

D7 G

Íamos vivendo em paz

F#7 Bm

Nosso lar, em nosso lar sempre houve alegria

C G A/E

Eu vivia tão contente

C D7

Como contente ao teu lado estou

A/E

Tive, sim

Cm Bm

Mas comparar com o teu amor seria o fim

C A7

Eu vou calar

D7 G

Pois não pretendo amor te magoar

domingo, 27 de março de 2011

Ismael Silva

Antonico


Ismael Silva

Composição : Ismael Silva

Ôh Antonico

Vou lhe pedir um favor

Que só depende da sua boa vontade

É necessário uma viração pro Nestor

Que está vivendo em grande dificuldade

Ele está mesmo dançando na corda bamba

Ele é aquele que na escola de samba

Toca cuíca, toca surdo e tamborim

Faça por ele como se fosse por mim



Até muamba já fizeram pro rapaz

Porque no samba ninguém faz o que ele faz

Mas hei de vê-lo bem feliz, se Deus quiser

E agradeço pelo que você  fizer.





        Quando lemos a biografia de mais um bamba do samba brasileiro, quando assim o fazemos com vagar, nos damos conta de que realmente um hiato prazeiroso se estabelece.
                     O fato é que não vivenciamos tal coisa, pois tenho como muitos de minha geração cinquenta anos e nem sequer era nascido...
                     Como devia ser aquela primeira escola de samba desfilando, a DEIXA FALAR, com a tal batida que se desvencilhava aos poucos da influência do maxixe, como deveria ser o carnaval daquela época, aquele que ultrapassa ou transcende as fotos e documentos referentes ao tal período.....
                     É precisamente no campo da reconstituição que estamos, e isto é saudável e fundamental, mas para mim é ainda pouco e sempre o será.
                     Não há neste mundo livro especializado capaz de preencher este vazio eterno em relação ao que se foi.
                     O grande Ismael, autor de grandes sucessos como ANTONICO E SE VOCÊ JURAR, deixa no ar aquela sensação extremamente agradável de volta ao passado, daquele querer estar ali naquele tempo, naquela hora.
                      Alternando períodos de vasta produção com períodos de isolamento, diríamos que o resultado de sua obra é invejável, enriquecida por parcerias com FRANCISCO ALVES, NILTON BASTOS E NOEL ROSA.

                     São letras que podem ser lidas sem música, em tom de voz suave, são letras que  independem de melodia para existir, situação essa raríssima no cenário atual de samba neste país.

                    Quer me parecer que a produção séria tem esse poder de transformar situações cotidianas em composições profundas. É quando a verdade do artista se manifesta naquilo que ele faz.


           Os versos tristes de ANTONICO apresentam bela combinação de rimas ricas e a melodia envolvente vai logo nos colocando no cerne do contexto.
           Na primeira estrofe temos um nome próprio rimando com um substantivo NESTOR/FAVOR .
            Seguindo a mesma temos BAMBA com SAMBA e TAMBORIM com MIM..
            Na segunda estrofe temos FAZ com  RAPAZ e FIZER com QUISER, ou seja, temos um substantivo rimando com um verbo e no final dois verbos.

            É preciso que se perceba a sofisticação destas rimas nesta composição e que se estude mais a fundo a obra de ismael também neste sentido.

terça-feira, 22 de março de 2011

NELSON CAVAQUINHO

PRANTO DO POETA

NELSON CAVAQUINHO E GUILHERME DE BRITO


Em Mangueira
Quando morre um poeta
Todos choram bis
Vivo tranquilo em Mangueira porque
Sei que alguém há de chorar quando eu morrer

Mas o pranto em Mangueira é tão diferente
É um pranto sem lenço
Que alegra a gente
Hei de Ter um alguém
Pra chorar por mim
Através de um pandeiro e de um tamborim


            Morre um poeta e fica a poesia, a lembrança de seus versos na alma de todos que os veneram.
            É em Mangueira, berço de inúmeros bambas, que esta celebração acontece de forma simples e verdadeira.
             Todos choram este pranto misterioso sem lenço e banhado de alegria, pois o samba tem este poder de literalmente nos arrancar de nós mesmos, deste universo ordinário e sem magia. Só mesmo através da adoção de uma postura artística ou trágica, só e tão somente, poderemos suportar este sistema medíocre e sufocante.
               Sempre alguém há de chorar quando o poeta morre. Vive ele feliz, pois guarda a certeza de que alguém perpetuará sua obra, pois este mínimo prazer é mais poderoso do que qualquer outra coisa neste vasto mundo.
                Será um choro que conseguirá extrair da tristeza a alegria que por sua vez há de encontrar a eternidade.
               A morte aqui é paradoxalmente como que  um renascimento de um outra esfera espiritual. Foi-se a carne, mas aquilo que estará sempre ali acha-se compromissado com o além.
               É quando esbarramos com o silêncio do inviolável, quando o segredo abre as portas de uma outra possibilidade em nível de percepção.













 

domingo, 6 de março de 2011

   Certas parcerias parecem obra dos Deuses, como esta entre Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito.

Esta bela composição prima pela simplicidade das imagens que nos convidam a sair por aí pisando em folhas secas caídas não somente de uma mangueira, mas de qualquer árvore, em qualquer outro lugar que nos transporte para fora de nós mesmos e nos lance de encontro à poesia que nos encanta com promessas de eternidade.


Quando eu piso em folhas secas

Caídas de uma mangueira

Penso na minha escola
E nos poetas da minha estação primeira
Não sei quantas vezes
Subi o morro cantando
Sempre o sol me queimando
E assim vou me acabando.
Quando o tempo avisar
Que não posso mais cantar
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão
Da minha mocidade

NELSON CAVAQUINHO E GUILHERME DE BRITO : A BELEZA NA SIMPLICIDADE.

E
Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha estação primeira
Não sei quantas vezes
Subi o morro cantando
Sempre o sol me queimando
E assim vou me acabando.
Quando o tempo avisar
Que não posso mais cantar
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão
Da minha mocidade


sábado, 12 de fevereiro de 2011

A ATUALIDADE DE CANDEIA - PRECISO ME ENCONTRAR

                                 Deixe-me ir preciso andar,
                                 vou por aí a procurar,
                                  rir pra não chorar
                                  Deixe-me ir preciso andar,
                                  vou por aí a procurar
                                  rir pra não chorar
                                    
                                    Quero assistir ao sol nascer,
                                     ver as águas do rio correr,
                                      ouvir os pássaros cantar
                                        eu quero nascer 
                                                    quero viver
                                       
                                           Deixe-me ir, 
                                                  preciso andar
                                                       vou por aí procurar
                                                            rir pra não chorar
                                                            Se alguém por mim perguntar
                                                                 Diga que só vou voltar
                                                                    Depois de me encontrar....


                 O poeta, um homem da palavra, está inquieto naquele tal dia sem brilho e resolve dar uma volta pelo bairro.
                 Segue andando à procura de algo que desconhece e sente que nada é suficientemente propício.
                 É a tal sensação de desajustamento, bem observada pelo escritor CAIO FERNANDO ABREU.
                 Como diz Roland Barthes, não se trata de rompimento com nada ou com ninguém. Esta sensação apenas e tão somente se harmoniza com o abandono deste instante qualquer.
                O poeta, homem da palavra, é arrebatado por esta música do mestre Candeia, por este samba, diga-se de passagem, tão profundamente simples e devastador.
                 Precisa andar, não precisa estar com ninguém, precisa que o deixem, pois ele está a se procurar no interior de tudo que é vazio ou escuro. 
                  A imagem de Candeia em sua mente a olhar para o além. O poeta que testemunha o nascer do sol, que quer ver as águas do rio correr e quer ouvir os pássaros cantar por aí, neste demonstrativo que não aponta para nada, neste pronome que nos conduz ao desconhecimento completo de nós mesmos.
                  Renascer como no Tao ao recobrar os sentidos da luz nas trevas.

                         Viver infinitivo no precário equilíbrio de uma consciência alterada.

                   
                                   

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

NÃO ME INTERPRETEM MAL, MAS...

  Olá amigos,
   Não me interpretem mal quando critico os grupos que fazem trabalhos sem conteúdo com o fito de vender milhões de cópias.
    Ocorre isto mesmo neste país que não está acostumado a oferecer qualidade aos seus cidadãos.
    Olho para o lado e vejo com otimismo o surgimento de outros compositores cujas concepções vão de encontro ao chamado samba autêntico, ao samba de raiz com melodias belíssimas e letras que realmente encantam.
    Não pretendo ainda aqui criar inimizades com quer quer que seja, mas observo que há um tipo de postura que considera monótona a produção do chamado samba de raiz.
    Ocorre que as pessoas estão tão viciadas na correria, digo isto em termos de compasso musical destes sambas para consumo rápido, que não são capazes de sentir a cadência de uma composição verdadeira.
   A dolência do samba de raiz incomoda pelo fato de convidar os ouvintes à reflexão. Não se coaduna com as exigências desta moderna vida ordinária.
  Não se trata ainda  de dizer que os ouvintes devem ter o que querem.
  Eles precisam é ter acesso a este tipo de coisa, precisam de outros estímulos que refinem um pouco mais sua postura musical.
   Os compositores Léo Fernandes, Thiago-Ajary, João de Abreu e também a poetisa e compositora Maria Helena Bruzzani são parceiros que pretendo manter para o resto de meus dias.
    Todos eles pessoas iluminadas que escrevem e criam melodias extraordinárias.
      Tenho a sorte de haver produzido com estes virtuosos sambas de boa qualidade.
       Entendo que intervenções sérias se fazem necessárias para que a população seja literalmente melhor informada acerca desta vasta produção nacional.
       Precisamos de mais shows em praça pública, de mais NELSON CAVAQUINHO, DELCIO CARVALHO, CARTOLA e NELSON SARGENTO nas ruas. Precisamos de mais mostras e ciclos de debates sobre samba com entrada franca nos teatros e espaços culturais desta cidade. Precisamos atrair os ouvintes através de múltiplas iniciativas em todas as cidades do país. Precisamos abrir espaço para os compositores de ponta que encontram muita dificuldade em mostrar seus trabalhos.
    Acredito que se fizermos isso, se realmente o fizermos, esvaziaremos os meios de comunicação que certamente terão que mudar sua visão mercadológica se quiserem sobreviver.
       Parece evidente que se trata de um luta desigual, se considerarmos o poder inquestionável dos chamados mass media no que se refere à modelagem do gosto, mas algo tem que ser feito neste sentido.
       Não tenho ainda nada contra o chamado pagode, mas há que se ter cuidado para que a composição não se torne piegas e sem conteúdo.
       Fala-se muito em povo, sobre o que o povão gosta.
       Pergunto eu: Que povo é este?
                            Quem, neste mísero país, se arroga o direito de falar por eles?
                              
       Tenho a plena certeza de que este tal povo, que não sei bem o que é, se corretamente orientado vai fazer a diferença.