vou por aí a procurar,
rir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar,
vou por aí a procurar
rir pra não chorar
Quero assistir ao sol nascer,
ver as águas do rio correr,
ouvir os pássaros cantar
eu quero nascer
quero viver
Deixe-me ir,
preciso andar
vou por aí procurar
rir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que só vou voltar
Depois de me encontrar....
O poeta, um homem da palavra, está inquieto naquele tal dia sem brilho e resolve dar uma volta pelo bairro.
Segue andando à procura de algo que desconhece e sente que nada é suficientemente propício.
É a tal sensação de desajustamento, bem observada pelo escritor CAIO FERNANDO ABREU.
Como diz Roland Barthes, não se trata de rompimento com nada ou com ninguém. Esta sensação apenas e tão somente se harmoniza com o abandono deste instante qualquer.
O poeta, homem da palavra, é arrebatado por esta música do mestre Candeia, por este samba, diga-se de passagem, tão profundamente simples e devastador.
Precisa andar, não precisa estar com ninguém, precisa que o deixem, pois ele está a se procurar no interior de tudo que é vazio ou escuro.
A imagem de Candeia em sua mente a olhar para o além. O poeta que testemunha o nascer do sol, que quer ver as águas do rio correr e quer ouvir os pássaros cantar por aí, neste demonstrativo que não aponta para nada, neste pronome que nos conduz ao desconhecimento completo de nós mesmos.
Renascer como no Tao ao recobrar os sentidos da luz nas trevas.
Viver infinitivo no precário equilíbrio de uma consciência alterada.