Olá amigos,
Ando ouvindo muita coisa por aí e estou ficando velho e deixando de me enganar em relação ao cenário nacional em termos de samba.
Os grupos de pagode andam produzindo coisas bem fraquinhas, a começar pela mesmice das letras com rimas pobres e imagens medíocres.
Se Nelson Cavaquinho, Cartola e tantos outros ressuscitassem agora, voltariam correndo para o túmulo quando se deparassem com estes trabalhos muito ruins.
Parece que a coisa só funciona quando estes grupos, ou mesmo compositores que seguem carreira individual, cantam as pérolas do passado e deixam de ferir os ouvidos de um público qualificado.
Não quero parecer tão cético assim, mas a coisa está realmente difícil.
Tenho o hábito de estudar as letras dos grandes mestres e também gosto de ouvir várias vezes os mesmos.
São motes trabalhados e melodias extremamente apuradas que encantam na hora qualquer um.
Estes compositores achavam-se comprometidos com a arte que é essencialmente uma manifestação da alma.
Antes da pressão mercadológica existe esta pulsão que desafia o instinto do artesão, do criador, daquele eu errante que transita entre o vazio e a forma.
Os sambas e pagodes que ouço, muito mais pagodes na verdade, apontam para um cotidiano que se torna piegas, coisa que não acontecia com as produções do passado.
O tema amoroso cada vez mais vulgar, imagens de morro estilizadas que cansam pela falta de veracidade e por rimas mais do que previsíveis.
Vejamos como a coisa funciona nesta letra que acabo de criar:
Meu amor estou com saudade
é verdade, é verdade,
meu coração está machucado
estou perdido, acabado
magoado com você
ah por favor vem me perdoa
estou à toa sem ninguém
vem aqui ficar comigo
sou seu amigo por favor
vem correndo meu amor
vem aqui vem me beijar.......
Coisas como estas são cantadas por milhões de pessoas....
Em contraposição a este pretenso samba, vamos observar esta letra de Nelson Cavaquinho:
Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca flor
Eu só errei quando juntei minh´alma à sua
O sol não pode viver perto lua
É no espelho que eu vejo a minha mágoa
A minha dor e os meus olhos rasos d´água
Eu na tua vida já fui uma flor
Hoje sou espinho em teu amor
Observem as rimas riquíssimas, caminho e espinho, dois substantivos, dor com flor, abstração e concretude, sua com lua, o possessivo com o substantivo lua em:
juntei minha alma a sua para distanciar-me como a lua indiferente.
Em frente ao espelho lamento vendo minha mágoa que rima com água que escorre por aí levando o que restou deste amor,
eu que na vida daquele que amei já fui flor
agora sou o espinho a ferir este amor.
Trata-se de um bamba que fazia com dedicação e profunda verdade o seu trabalho.
Tenho esperanças de que os pagodeiros e sambistas voltem o olhar para este tipo de produção.