domingo, 27 de março de 2011

Ismael Silva

Antonico


Ismael Silva

Composição : Ismael Silva

Ôh Antonico

Vou lhe pedir um favor

Que só depende da sua boa vontade

É necessário uma viração pro Nestor

Que está vivendo em grande dificuldade

Ele está mesmo dançando na corda bamba

Ele é aquele que na escola de samba

Toca cuíca, toca surdo e tamborim

Faça por ele como se fosse por mim



Até muamba já fizeram pro rapaz

Porque no samba ninguém faz o que ele faz

Mas hei de vê-lo bem feliz, se Deus quiser

E agradeço pelo que você  fizer.





        Quando lemos a biografia de mais um bamba do samba brasileiro, quando assim o fazemos com vagar, nos damos conta de que realmente um hiato prazeiroso se estabelece.
                     O fato é que não vivenciamos tal coisa, pois tenho como muitos de minha geração cinquenta anos e nem sequer era nascido...
                     Como devia ser aquela primeira escola de samba desfilando, a DEIXA FALAR, com a tal batida que se desvencilhava aos poucos da influência do maxixe, como deveria ser o carnaval daquela época, aquele que ultrapassa ou transcende as fotos e documentos referentes ao tal período.....
                     É precisamente no campo da reconstituição que estamos, e isto é saudável e fundamental, mas para mim é ainda pouco e sempre o será.
                     Não há neste mundo livro especializado capaz de preencher este vazio eterno em relação ao que se foi.
                     O grande Ismael, autor de grandes sucessos como ANTONICO E SE VOCÊ JURAR, deixa no ar aquela sensação extremamente agradável de volta ao passado, daquele querer estar ali naquele tempo, naquela hora.
                      Alternando períodos de vasta produção com períodos de isolamento, diríamos que o resultado de sua obra é invejável, enriquecida por parcerias com FRANCISCO ALVES, NILTON BASTOS E NOEL ROSA.

                     São letras que podem ser lidas sem música, em tom de voz suave, são letras que  independem de melodia para existir, situação essa raríssima no cenário atual de samba neste país.

                    Quer me parecer que a produção séria tem esse poder de transformar situações cotidianas em composições profundas. É quando a verdade do artista se manifesta naquilo que ele faz.


           Os versos tristes de ANTONICO apresentam bela combinação de rimas ricas e a melodia envolvente vai logo nos colocando no cerne do contexto.
           Na primeira estrofe temos um nome próprio rimando com um substantivo NESTOR/FAVOR .
            Seguindo a mesma temos BAMBA com SAMBA e TAMBORIM com MIM..
            Na segunda estrofe temos FAZ com  RAPAZ e FIZER com QUISER, ou seja, temos um substantivo rimando com um verbo e no final dois verbos.

            É preciso que se perceba a sofisticação destas rimas nesta composição e que se estude mais a fundo a obra de ismael também neste sentido.

terça-feira, 22 de março de 2011

NELSON CAVAQUINHO

PRANTO DO POETA

NELSON CAVAQUINHO E GUILHERME DE BRITO


Em Mangueira
Quando morre um poeta
Todos choram bis
Vivo tranquilo em Mangueira porque
Sei que alguém há de chorar quando eu morrer

Mas o pranto em Mangueira é tão diferente
É um pranto sem lenço
Que alegra a gente
Hei de Ter um alguém
Pra chorar por mim
Através de um pandeiro e de um tamborim


            Morre um poeta e fica a poesia, a lembrança de seus versos na alma de todos que os veneram.
            É em Mangueira, berço de inúmeros bambas, que esta celebração acontece de forma simples e verdadeira.
             Todos choram este pranto misterioso sem lenço e banhado de alegria, pois o samba tem este poder de literalmente nos arrancar de nós mesmos, deste universo ordinário e sem magia. Só mesmo através da adoção de uma postura artística ou trágica, só e tão somente, poderemos suportar este sistema medíocre e sufocante.
               Sempre alguém há de chorar quando o poeta morre. Vive ele feliz, pois guarda a certeza de que alguém perpetuará sua obra, pois este mínimo prazer é mais poderoso do que qualquer outra coisa neste vasto mundo.
                Será um choro que conseguirá extrair da tristeza a alegria que por sua vez há de encontrar a eternidade.
               A morte aqui é paradoxalmente como que  um renascimento de um outra esfera espiritual. Foi-se a carne, mas aquilo que estará sempre ali acha-se compromissado com o além.
               É quando esbarramos com o silêncio do inviolável, quando o segredo abre as portas de uma outra possibilidade em nível de percepção.













 

domingo, 6 de março de 2011

   Certas parcerias parecem obra dos Deuses, como esta entre Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito.

Esta bela composição prima pela simplicidade das imagens que nos convidam a sair por aí pisando em folhas secas caídas não somente de uma mangueira, mas de qualquer árvore, em qualquer outro lugar que nos transporte para fora de nós mesmos e nos lance de encontro à poesia que nos encanta com promessas de eternidade.


Quando eu piso em folhas secas

Caídas de uma mangueira

Penso na minha escola
E nos poetas da minha estação primeira
Não sei quantas vezes
Subi o morro cantando
Sempre o sol me queimando
E assim vou me acabando.
Quando o tempo avisar
Que não posso mais cantar
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão
Da minha mocidade

NELSON CAVAQUINHO E GUILHERME DE BRITO : A BELEZA NA SIMPLICIDADE.

E
Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha estação primeira
Não sei quantas vezes
Subi o morro cantando
Sempre o sol me queimando
E assim vou me acabando.
Quando o tempo avisar
Que não posso mais cantar
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão
Da minha mocidade