terça-feira, 22 de março de 2011

NELSON CAVAQUINHO

PRANTO DO POETA

NELSON CAVAQUINHO E GUILHERME DE BRITO


Em Mangueira
Quando morre um poeta
Todos choram bis
Vivo tranquilo em Mangueira porque
Sei que alguém há de chorar quando eu morrer

Mas o pranto em Mangueira é tão diferente
É um pranto sem lenço
Que alegra a gente
Hei de Ter um alguém
Pra chorar por mim
Através de um pandeiro e de um tamborim


            Morre um poeta e fica a poesia, a lembrança de seus versos na alma de todos que os veneram.
            É em Mangueira, berço de inúmeros bambas, que esta celebração acontece de forma simples e verdadeira.
             Todos choram este pranto misterioso sem lenço e banhado de alegria, pois o samba tem este poder de literalmente nos arrancar de nós mesmos, deste universo ordinário e sem magia. Só mesmo através da adoção de uma postura artística ou trágica, só e tão somente, poderemos suportar este sistema medíocre e sufocante.
               Sempre alguém há de chorar quando o poeta morre. Vive ele feliz, pois guarda a certeza de que alguém perpetuará sua obra, pois este mínimo prazer é mais poderoso do que qualquer outra coisa neste vasto mundo.
                Será um choro que conseguirá extrair da tristeza a alegria que por sua vez há de encontrar a eternidade.
               A morte aqui é paradoxalmente como que  um renascimento de um outra esfera espiritual. Foi-se a carne, mas aquilo que estará sempre ali acha-se compromissado com o além.
               É quando esbarramos com o silêncio do inviolável, quando o segredo abre as portas de uma outra possibilidade em nível de percepção.













 

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