Tive, Sim
Cartola
Mais um samba fabuloso deste grande mestre chamado Cartola.
A começar pelo título que imediatamente aguça a curiosidade do ouvinte, pois trata-se de um fragmento, de um trecho flexionado no passado sugerindo certa incompletude.
Vamos acompanhando a cadência, levemente melancólica e saudosista, quando da afirmação profundamente sincera e geralmente dolorosa de um amor que já se foi, mas que ficou marcado na alma para sempre.
Diferentemente dos pagodes românticos que insistem na tosca abordagem desta temática, o compositor-poeta é cuidadoso na escolha dos versos, principalmente na cena inicial.
Observem que a trama se desenvolve harmonicamente sem excessos e com profundo esmero.
Reparem ainda na riqueza das rimas, pois o artista foi muito feliz ao trabalhar com sim e assim sem ferir os ouvidos.
A verdade na constatação para o outro de que houve um grande amor machuca e muito, ainda mais quando se alude à comunhão de sonhos que poderia ainda ser ampliada em vários níveis de desejo. Nossa vivência acha-se expressa nesta bela frase certamente, estabelecendo-se assim a perfeita interação entre música e ouvinte.
Vamos seguindo este caminho árduo e misterioso, e nos deparamos com versos que sugerem uma atmosfera mais intimista ao apontarem para uma grande cumplicidade no lar, na vida doméstica, na rotina de todos os dias, nesta tal poderosa intimidade que pode ameaçar a estabilidade da relação com o outro, com o parceiro da hora que ao ouvir tal coisa está como que a se roer por dentro.
Este crescendo em nível de tensão esbarra, insisto que não há pieguice aqui, em seu arrefecimento no doce correr dos versos finais quando o amor atual eterno e duradouro é reafirmado.
Cartola retrata aqui de forma magnífica as sutilezas do jogo amoroso que deve, quer queiramos ou não, ser sempre posto à prova para encontrar re-conhecimento.
Tive, sim
Outro grande amor antes do seu
Tive sim
O que ela sonhava eram os meus sonhos e assim/
Íamos vivendo em paz/
Nosso lar, em nosso lar sempre houve alegria
Eu vivia tão contente
Como contente ao teu lado estou
Tive, sim
Mas comparar com o teu amor seria o fim
Eu vou calar
Pois não pretendo amor te magoar
Belo samba, Ayres... digo, belo texto, bela análise... Tua sensibilidade aguçada realça ainda mais o que ouvimos dos mestres. Parabéns.
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