domingo, 24 de março de 2013

DOLORES DURAN

FIM DE CASO

O tom nitidamente feminino predomina nesta composição de forma singular e nos arrebata de pronto.O eu desconfia, pelo fato de já saber intuitivamente, que algo irá chegar ao fim. O entremeio,o espaço no qual toda a elaboração da angústia se dá aqui, é magistralmente descrito na riqueza dos versos desta extraordinária cantora e compositora. O eu feminino aqui sofre e chora e sangra, pois sabe que o caminho é pedregoso, difícil e árduo e que em estado de dúvida é efêmero, não se mantém por muito tempo, mas quanto tempo há no tempo temporalmente concebido, que lugar será este, que percepção temporal será esta neste hiato sacralizado, neste aqui e agora, neste estado de respiração suspensa....

Observermos os versos...

Eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar
há um adeus em cada gesto em cada olhar
mas nós não temos nem coragem de falar
Nós já tivemos a nossa fase de carinho apaixonado
de fazer versos, de viver sempre abraçados
naquela base do só vou se você for
mas de repente vamos ficando cada dia mais sozinhos
seguindo juntos cada qual o seu caminho
e já não temos nem vontade de brigar
tenho pensado e deus permita que eu esteja errada
mas eu estou há eu estou desconfiada
que o nosso caso está na hora de acabar

Estes versos derramados e melancólicos, essa força que nos abala pelo fato de nos vermos exatamente assim, sem amarras frente à possibilidade do fracasso neste tempo de angústia cruel e quase que indecifrável, nesta dor que nos assola quando nos damos conta de nossa fragilidade enquanto seres de carne e osso.

Estes versos,estes verbos que pouco dizem acerca do sofrimento deste ser, deste ser que vai muito além da mera desconfiança, muito além da intuição feminina que pressente o fim, muito além da esperança na recorrência a Deus, muito além de qualquer possibilidade de representação.

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